quinta-feira , 18 de Janeiro de 2018
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O Estado agora legisla sobre o dicionário

Foram os jacobinos, aqueles fanáticos que se sentavam à esquerda no parlamento revolucionário francês do final do século XVIII, que inventaram um calendário com semanas de 10 dias, dias com novos nomes e a abolição de feriados religiosos. “Um outro mundo é possível”, diriam eles, ecoando a paternidade de uma nova era idealista que, parece, continua sendo o mote e o sonho de muita gente bacana que ainda insiste em impôr sua particular visão do paraíso aos outros. Rejeitada maciçamente pela população francesa da época, o calendário caiu no ostracismo, mas a ideia de reformular os conceitos tradicionais, “criar uma nova era de ruptura das tradições cristãs” nunca esteve tão em pauta.

Aí vem o famigerado Estatuto das Famílias. Famigerado, não porque defina família de acordo com este ou aquele grupo de pressão, à esquerda ou à direita, repetindo o mesmíssimo paradigma do antigo parlamento francês, mas porque, seja de que lado o documento se posicione, parte da premissa de que é o Estado quem define o que é família. Vejo ecoar, como um sopro inconsciente, a célebre frase atribuída a Mussolini: “ Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”.

Então ficamos assim, como no romance 1984, de George Orwell: institua-se um “Ministério da Verdade”, equivalente ao de Oceania, o país fictício da obra do romancista, onde a “verdade” será, em última instância, aquilo que o Estado, através da lei, disser que é verdade. Não importa se fruto deste ou daquele grupo de pressão, como no caso do Estatuto. Uma vez legislada, a verdade tem os auspícios da coação estatal ao seu lado e a impossibilidade de qualquer questionamento, tornando-se um mero preconceito ideológico pronto e acabado e um instrumento de poder para impôr aos dissidentes, como sempre, sua própria visão de mundo, goela abaixo.

Fico cá imaginando o futuro das ciências consideradas “duras” e dos fatos econômicos empiricamente observáveis, apenas para citar dois exemplos, quando estes não corroborarem a opinião dominante (leia-se: do grupo que fizer mais barulho na mídia ou nas redes sociais) ou simplesmente forem “politicamente incorretos”.

Sobre Carlos Gonçalves

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Doutor em Direito Privado – UFPE, Professor Universitário, Advogado.