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Crédito: Sergio Amaral/MDS

Tudo que você sabia sobre Educação no Brasil está errado

O benefício social do sistema atual, com todas as suas falhas, é bem maior do que no passado, pelo simples fato de que aumenta as oportunidades de acesso – o que também explica o aumento significativo das vagas ofertadas e demandadas no ensino superior. Que, diga-se de passagem, no Brasil continua sendo uma porcaria, mas ainda assim muito melhor do que no passado. O melhor dado que mostra isso é o percentual bruto da população em idade universitária matriculada no ensino superior.

Abaixo temos o percentual de matrículas no ensino superior no Brasil ao longo das últimas décadas:

 Percentual bruto de matrículas no ensino superior em relação à população em idade universitária. (Fonte: IndexMundi e IBGE)
Percentual bruto de matrículas no ensino superior em relação à população em idade universitária. (Fonte: IndexMundi e IBGE)

Antigamente qualquer, e qualquer mesmo, diploma de ensino superior era garantia de emprego muito bem remunerado. Afinal, em 1970 somente pouco mais de 4% da população em idade universitária estava matriculada em uma faculdade. Não há como ser mais elitista do que isso. De 1980 a 1990, nossa década perdida, esse índice até recuou, de 11,15% a 10,81%. De lá pra cá houve uma expansão significativa do acesso ao ensino superior. Ainda assim, nosso índice em 2014, de quase 29%, ainda fica muito abaixo do resto do mundo. Para nossos hermanos Argentinos, por exemplo, a proporção bruta de matrículas no ensino superior chega a quase 90% da população em idade universitária.  Se considerarmos somente os países de renda média, entre U$10.000 e U$20.000 em poder de paridade de compra, podemos ver abaixo no gráfico que o Brasil só fica à frente de Azerbaijão, África do Sul e Botswana.

 Renda per capita (U$ PPP) e % bruto das matrículas no ensino superior sobre a população em idade universitária, ano mais recente. (Fonte: Banco Mundial e IBGE, elaboração própria)
Renda per capita (U$ PPP) e % bruto das matrículas no ensino superior sobre a população em idade universitária, ano mais recente. (Fonte: Banco Mundial e IBGE, elaboração própria)

De qualquer forma, o salto brasileiro, de pouco mais de 4% em 1970 para quase 30% hoje, resultou na perda dos privilégios da antiga classe média, que agora tem que enfrentar uma competição maior no mercado de trabalho e, por isso, conclama que no passado tudo era “melhor”. Realmente, para uma pequena parcela da população, o privilégio passado de acesso quase exclusivo aos colégios e universidades públicas era realmente muito melhor, mas com certeza para a sociedade como um todo avançamos ao longo das últimas décadas, embora ainda muito longe do mundo ideal. E, provavelmente, não vamos conseguir fazer o catching up com o resto do mundo nos próximos anos, pois desenhamos nosso modelo de forma inversa ao que mostra a recente evidência científica.

Tudo que sabíamos sobre retorno de investimentos em educação estava errado. Durante a maior parte das últimas décadas, os esforços de muitos países, inclusive o Brasil, se concentraram em garantir o acesso de pessoas à educação. Isso é obviamente um objetivo nobre e necessário, mas poucas vezes nos perguntamos como se deve fazer esse acesso. Por exemplo, começamos a busca pela universalização pelo ensino fundamental, seguindo as normas internacionais, enquanto tentávamos a busca por prestígio internacional através de investimentos grandes em universidades públicas e gratuitas. Isso sempre pareceu fazer muito sentido, até descobrirmos, recentemente, que o maior retorno do investimento por educação é completamente diferente do que pensávamos.

Nos últimos 15 anos diversos estudos começaram a mapear retorno de investimento em educação. O resultado principal deles pode ser resumido no gráfico abaixo, de uma apresentação de James Heckman, prêmio Nobel em Economia[1], e que tem se dedicado, depois de ganhar o prêmio máximo da área, em focar seus esforços para transformar o nosso conhecimento sobre como devemos concentrar nossos investimentos na área. Recomendo fortemente o seu projeto Heckman Equation, que tem parte do material em português.

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O gráfico mostra a taxa de retorno do investimento em capital humano com relação à idade do indivíduo. O resultado é claro, existem retornos decrescentes de intervenções educacionais à medida que elas acontecem em indivíduos mais velhos. Existem diversas razões para isso, desde de genéticas até processos de desenvolvimento cognitivo. É muito mais custoso intervir em educação de nível superior do que primária. E ainda mais custoso do que intervenções nos anos pré-escolares. Programas como a criação de novas instituições federais de ensino, portanto, não tem como resolver nossas lacunas de ensino, pois são extremamente caros em termos dos benefícios sociais. Simplesmente devemos trocar intervenções mais à frente do sistema educacional por um foco nos períodos pré-escolares.

Vale lembrar que os trabalhos de James Heckman não são os únicos a apontar esses resultados. Artigos de medicina, ciências sociais e de outros campos corroboram os achados de que quanto antes forem feitos gastos educacionais (e de saúde), mais retorno pelo investimento da sociedade. Alguns exemplos de excelentes trabalhos são os de Campbell et al (2014), Gertler et al (2014), Dynarski et al (2013) e Muschkin et al (2015). Esse consenso é recente, e mesmo que a metodologia de medição de resultados ainda esteja passando por avanços, os resultados são inequívocos.

Se os resultados são tão diretos, então porque não há uma revolução sobre como os países investem em intervenções pré-natal e educação pré-escolar? Uma das respostas tem a ver com a desigualdade inter-geracional – o fato de que o processo político é dominado por uma geração que não necessariamente tem os interesses de gerações mais novas como incentivos. Mas uma análise dessa questão e um aprofundamento sobre os dados dos investimentos brasileiros em educação farei em um próximo post, onde também tentarei começar a desenhar políticas públicas ideais para o caso brasileiro, ao analisar o que tem dado certo e errado no mundo. Uma prévia: universalização de acesso a creche e diminuição do tamanho das turmas nas escolas não são a resposta.

REFERÊNCIAS

[1] Não, não existe prêmio Nobel em economia de fato. O prêmio é na verdade em memória de Alfred Nobel e é dado pelo Banco Central da Suécia.

Publicado originalmente no site Pragmatic Economics and Sustainable Finance

Sobre Rodrigo Zeidan

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Sou Associate Professor of Practice of Business and Finance na New York University Shanghai, além de Associate Editor do Journal of Sustainable Finance & Investment. Minhas pesquisas se dedicam à tomada de decisão em finanças e economia, com foco em Economia Industrial, Economia Internacional, Governança Corporativa e Finanças. Publico regularmente em periódicos internacionais de destaque, tais como Journal of Business Ethics, Economic Letters, International Journal of Production Economics, European Journal of Health Economics, Applied Financial Economics e Review of Industrial Organization. Sou autor dos livros “O Modelo Dinâmico de Gestão Financeira” e “Vida de Rico sem Patrimônio”. Recentemente tenho procurado desenhar mudanças no sistema educacional brasileiro para aumentar a acumulação de capital humano no Brasil no médio e longo prazo. Participo de vários eventos nacionais e internacionais, incluindo-se convites para keynote speaker na l Conference on Social Entrepreneurship, Systems Thinking, and Complexity, New York, EUA. Possuo vários prêmios como professor, destacando-se o Prêmio Academia Itaú/IBGC em 2011. Sou consultor e ministro diversos cursos de educação para executivos em empresas de médio e grande porte, com destaque para Johnson & Jonhson, L’Oreal, dentre outras.